do portal do cebrapaz
| 19/02/2010 | |
| Em pronunciamento proferido nesta quinta-feira (18), na Reunião do Secretariado do Conselho Mundial da Paz, a brasileira Socorro Gomes, presidente da entidade, alertou para o atual “quadro de agravamento dos problemas econômicos e sociais no mundo”, em um “momento em que se prenunciam novos conflitos”.Socorro, em contrapartida, assinalou que “os povos, apesar da cortina de fumaça cada vez mais densa, despertam e lutam. Do Oriente Médio à América Latina, da Europa, da África aos Estados Unidos, os povos estão em luta, o que consolida as nossas convicções de partidários da paz e lutadores por um mundo livre das guerras, e da opressão imperialista”.
Confira abaixo a íntegra do pronunciamento de Socorro: Em primeiro lugar, gostaria de expressar em nome do Conselho Mundial da Paz os agradecimentos ao Conselho da Paz do Nepal por organizar em seu país a reunião do Secretariado do Conselho Mundial da Paz, em tão boas condições. Os nossos agradecimentos se estendem ao povo do Nepal, hospitaleiro e acolhedor, e às instituições democráticas de seu país. Congratulamo-nos com as vitórias do povo nepalês e desejamos êxitos na construção da República democrática e na caminhada para o desenvolvimento e o progresso social. Esta reunião se realiza num quadro de agravamento dos problemas econômicos e sociais no mundo e num momento em que se prenunciam novos conflitos. Apesar da profusão de notícias e análises sobre o mundo já estar vivendo a fase dita “pós-crise”, nas últimas semanas eclodiu o que se pode chamar o segundo ciclo da crise global, desta vez em países da União Europeia que chegaram a uma situação falimentar relativamente à dívida pública e ao déficit fiscal. As duas maiores economias da União Europeia sofreram acentuada recessão em 2009. A economia da França encolheu 2,2% e a da Alemanha 5%. O ônus de tal crise recai sobre os trabalhadores e as camadas mais pobres da população, que sofrem de maneira mais direta e dramática as conseqüências das medidas governamentais, entre elas a redução dos salários, o desemprego, a precarização dos serviços públicos, o corte dos direitos trabalhistas e previdenciários. Saudamos as lutas dos trabalhadores que se mobilizaram nos últimos dias em greves e manifestações. Os dramas sociais da crise e as lutas que provocam são efeitos inevitáveis das políticas aplicadas pelas mesmas forças imperialistas que investem grandes recursos na militarização do planeta. Recentemente, o governo dos Estados Unidos anunciou um gasto militar para o ano em curso da ordem de 708 bilhões de dólares, numa situação em que o país apresenta um déficit fiscal de 1 trilhão e 500 bilhões de dólares, equivalente a mais de 10 por cento do Produto Interno Bruto. Companheiras e companheiros, É neste ambiente que mais uma vez a humanidade ouve o rufar dos tambores de guerra. Numa reafirmação do seu propósito de manter o monopólio sobre as armas nucleares e dominar a região do Golfo Pérsico e do Oriente Médio, os Estados Unidos elevaram o tom das ameaças ao Irã e iniciaram uma escalada militarista na região que pode redundar em conseqüências funestas para a paz mundial e a segurança internacional. Ao tempo em que adotam novas e mais brutais sanções contra o país persa, empreendem intensa campanha diplomática e política para que a ONU ou países de per si façam o mesmo no plano bilateral. No aspecto militar, o governo de Barack Obama anunciou a instalação de um sistema anti-mísseis em quatro países do Golfo Pérsico e reforçou o chamado patrulhamento da costa iraniana por navios também habilitados a interceptar mísseis através de dispositivos militares de dissuassão e cerco. Não restam dúvidas de que tais ações constituem uma das mais brutais investidas de caráter político-militar nos últimos 12 meses. As promessas de paz e cooperação vão ficando para trás e cedendo lugar ao aspecto principal da política externa estadunidense: ameaças, intervencionismo e agressão. Isto se expressa claramente no Afeganistão. Transformado pela atual Administração norte-americana no principal cenário da chamada “guerra ao terrorismo”, o país encontra-se sob a ocupação de cerca de 150 mil soldados dos exércitos dos Estados Unidos e da Otan. O aumento dos efetivos militares e das despesas com a guerra de ocupação atestam que são falsos os anúncios de que estaria em curso a preparação da retirada. Mancomunadas com um governo fantoche no cometimento de crimes de genocídio contra a população civil, as tropas invasoras defrontam-se com uma resistência nacional e popular cada vez mais intensa que lhes inflige pesadas baixas. Tanto no Afeganistão como no Iraque, que também permanece sob ocupação militar e onde se desenvolve ampla e encarniçada resistência, é mais atual do que nunca a exigência das suas populações, com o apoio dos partidários da paz em todo o mundo, de retirada imediata e completa de todas as tropas invasoras. As duas guerras iniciadas na era Bush e ainda em curso sob a nova Administração, transformaram-se num pesadelo estratégico dos Estados Unidos. Recentemente, novo foco de conflitos voltou a eclodir na região denominada Chifre da África sob o pretexto de “luta contra terrorismo” e de “extirpar as células terroristas que se abrigam e atuam no Iêmen e a partir desse país se irradiam a outros países e regiões do mundo”, como apregoam os propagandistas do imperialismo. Em dezembro do ano passado os Estados Unidos realizaram bombardeios no Iêmen, provocando a morte de grande número de civis. Agora vêm à luz notícias de que o programa militar e de segurança do Pentágono para o Iêmen foi aumentado de 4,6 milhões de dólares para 67 milhões de dólares no ano passado. O Iêmen foi “elevado” à categoria de “prioridade”, segundo declarou o assistente do presidente Obama para a Segurança Nacional . Observa-se uma intensificação da atividade militar ao longo de mais de três mil quilômetros por todo o Oceano Indico. Em agosto do ano passado a Otan lançou sua segunda operação naval nas costas da Somália sob a denominação de “Escudo do Oceano”, com a participação de navios da Grã Bretanha, Grécia, Itália, Turquia e Estados Unidos. A operação prossegue, sem prazo para terminar. O fato é que a região do Oceano Indico vem ocupando um crescente papel nas estratégias globais do imperialismo norte-americano. O Pentágono utiliza o estado de insegurança na região, muitas vezes provocado pelas próprias ações das potências imperialistas e de regimes títeres, como pretextopara policiar e intervir nas águas do Oceano Indico. . Com dificuldades para aplicar o plano estratégico do grande Oriente Médio, o imperialismo estadunidense volta-se também para a região do Oceano Indico, onde está decidido a alavancar o seu poderio naval. As atenções do imperialismo norte-americano voltam-se também para o continente africano. Empobrecida pelo colonialismo, saqueada em seus recursos naturais, abandonada à própria sorte, a África possui, entretanto, imensas riquezas naturais, inclusive petróleo e minérios os mais diversos. Num intento que claramente visa a ocupar posições estratégicas e lançar-se num empreendimento neocolonialista, o imperialismo estadunidense decidiu criar o Africom, o Comando Africano. Trata-se de instalar na África unidades do exército dos Estados Unidos, altamente equipadas, permanentemente estacionadas no continente a fim de garantir, se necessário através da força, os interesses dos Estados Unidos na região. Uma vez mais, o objetivo proclamado é o “combate ao terrorismo”. Não passa, porém, de mais um conjunto de bases militares no exterior e de uma força de intervenção. Companheiras e companheiros, Há pouco mais de um mês a humanidade comoveu-se com a tragédia do povo haitiano, acometido por um terremoto de inauditas proporções que ceifou as vidas de mais de 200 mil pessoas e provocou enormes prejuízos materiais, dizimando praticamente a infra-estrutura já precária de um país empobrecido pelo colonialismo, pela dominação imperialista estadunidense e a pilhagem de elites domésticas ditatoriais e corruptas mancomunadas e submissas à potência do norte. Enquanto em vários países e no próprio Haiti estendiam-se as manifestações de solidariedade, em menos de 24 horas depois do sismo, militares dos Estados Unidos assumiam controle do aeroporto de Porto Príncipe. E para que? Para garantir a salvação e o repatriamento de cidadãos estadunidenses em serviço no país. Assim agiram os militares norte-americanos em detrimento da chegada da ajuda em comida e medicamentos provenientes de vários países. O fato gerou protestos das Nações Unidas, do Brasil e da França. Em poucos dias desembarcaram no Haiti 12 mil soldados e anuncia-se que outros tantos ainda serão enviados. Para o Haiti estão sendo deslocados também porta-aviões nuclear, submarinos e outras embarcações de guerra. Na verdade, o imperialismo norte-americano aproveitou-se da tragédia haitiana para fazer o que não pôde ser feito em 2004. Naquela ocasião, depois de ajudar a depor o presidente Bertrand Aristide e integrar uma força de ocupação em conjunto com a França, os Estados Unidos, empantanados que estavam na guerra ao Iraque, aceitaram a proposta das Nações Unidas de criar uma Missão sob o comando do Brasil e composta principalmente por países latino-americanos para pacificar o país, dilacerado por uma guerra civil, e estabilizá-lo através da cooperação econômica internacional. Os Estados Unidos consideram o Mar do Caribe como “Mare Nostrum”, o primeiro perímetro fora de suas fronteiras. Na verdade, pretendem que o Mar do Caribe seja uma extensão do seu território, um mar que faça parte das suas próprias águas territoriais. Ao ocupar militarmente o Haiti usando pretextos humanitários, uma vez mais os Estados Unidos menosprezam o direito internacional e atropelam a ONU. A ocupação militar do Haiti não pode ser vista fora do contexto da política intervencionista para a região da América Latina e Caribe, cuja prioridade é o cerco a Cuba e à Revolução Bolivariana Venezuelana. Nesse mesmo contexto se inscrevem a criação da Quarta Frota, das bases militares na Colômbia, o acordo militar com o Panamá e a existência de mais de uma dezena de outras bases militares em países caribenhos e latino-americanos . A toda essa escalada militarista e preparativos para o desencadeamento de guerras de agressão contra os povos e nações soberanas, soma-se uma ofensiva conservadora dentro da própria sociedade norte-americana. Chama a atenção a virulência dos ataques à democracia, ao progresso social, aos direitos civis, à igualdade social, à soberania das nações e à paz mundial observada durante a realização do congresso dos ultraconservadores dos Estados Unidos na denominada Festa do Chá (Tea Party), feita sob a bandeira da “contra-revolução” americana, como proclamaram os principais oradores. Tal fato não deve ser observado dentro da lógica binária nem da polarização eleitoral entre democratas e republicanos, mas desperta a preocupação dos partidários da paz, pois neles estão incubados os germens do fascismo à moda americana. Companheiras e companheiros, Dentro de três meses, entre os dias 3 e 28 de maio, realizar-se-á em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, a 8ª Conferência para a Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, o TNP. Paralelamente, entre os dias 30 e 1º de maio, distintos movimentos organizam a Conferência “Desarmamento Agora”. Tendo como pilares a não proliferação, o desarmamento e o uso da energia nuclear para fins pacíficos, o TNP é na verdade um Tratado desigual, assimétrico, pois busca “congelar” a ordem internacional entre estados nuclearmente armados e estados não nucleares. Sua prioridade na não proliferação em detrimento do desarmamento consolida a existência de um seleto clube de potências nucleares. O CMP reafirma seu engajamento na luta pela eliminação das armas nucleares, a começar pelas grandes potências. O teor do Apelo de Estocolmo, lançado pelo CMP quando da sua fundação, permanece atual. Companheiras e companheiros, A ofensiva política do imperialismo e o desenvolvimento da tendência à militarização e a guerra atestam o grave momento que vive a humanidade, ameaçada em sua sobrevivência. São ameaças na vida cotidiana, relacionadas com políticas imperialistas que põem em perigo também a paz mundial, o equilíbrio ambiental, a segurança internacional, os direitos sociais, a democracia e a independência nacional. O imperialismo norte-americano faz na atualidade um discurso hipócrita visando a confundir os povos e anestesiar as consciências, a fim de preservar intacto o seu sistema de dominação. Enquanto exibe uma fachada de democrata, multilateralista e cumpridor do direito internacional, pratica atos e protagoniza fatos que apontam no sentido contrário. Os Estados Unidos fazem de tudo para semear a ilusão num “império benevolente”, uma potência imperial magnânima e democrática, construtiva, garantidora da estabilidade, da paz e da segurança de todos. Não uma potência dominante, mas uma fiadora do equilíbrio de poder, capaz de oferecer a segurança como um bem público a ser fruído por todos. Assim, embaralha as cartas, mistura as pedras do tabuleiro e faz com que se confundam agredidos e agressores, e apresenta sua política intervencionista como operações de salvação com conteúdo solidário e humanitário. Nada disso, porém, é novo na prática de política externa do Partido democrata. Com discurso multilateralista o ex-presidente Clinton seguiu a trilha do unilateralismo inaugurado pelo primeiro Bush no início da década de 90 do século passado. Elevou os gastos militares, expandiu a Otan, ignorou o Conselho de Segurança da ONU na operação “Desert Fox” em 1998 contra o Iraque e na guerra contra a ex-Iugoslávia em 1999. Diante da falsidade do discurso do ocupante atual da Casa Branca e dos graves atentados à paz mundial, o CMP reafirma seu engajamento na luta pela paz e na solidariedade aos povos ameaçados e agredidos pelo imperialismo. Os povos, apesar da cortina de fumaça cada vez mais densa, despertam e lutam. Do Oriente Médio à América Latina, da Europa, da África aos Estados Unidos, os povos estão em luta, o que consolida as nossas convicções de partidários da paz e lutadores por um mundo livre das guerras, e da opressão imperialista. Muito obrigada! |











